Plus Ultra: Por que a Esperança ainda é a Maior das Rebeldias
Reflexões sobre como fui inspirado pelo anime My Hero Academia.
Meu texto inaugural é a prova de que Deus tem senso de humor.
Sempre tive vontade de escrever, seja livros, roteiros ou artigos. Mas, por conta da rotina e da minha procrastinação, nunca parei para dar atenção a isso como deveria. Gosto de me expressar textualmente, já que me acho uma negação falando pessoalmente ou até mesmo por telefone, por exemplo. Então, o ambiente virtual é confortável para mim.
Dito isso, preciso dar o contexto de como a ideia para esse primeiro texto surgiu. Afinal, nunca fui um fã de fato de anime, apesar de sempre ter gostado de Pokémon. Assisti a um ou outro quando criança, mas o gosto não pegou como foi com seriados americanos ou filmes blockbusters.
Um amigo me indicou, na época da pandemia do Covid-19, o anime My Hero Academia dizendo que era “a minha cara” e que eu iria gostar muito. Achei ousado da parte dele falar isso, visto que eu sou chatinho com meus gostos, haha. Porém, não é que ele acertou demais com a recomendação?
Eu me apaixonei pela série e, após terminar tanto o mangá quanto o anime, eu estava tão extasiado com a história que precisava discutir as minhas impressões com mais pessoas. E aí que tive a ideia de finalmente “botar no papel” tudo que eu queria abordar em uma “conversa de qualidade” e acabou servindo como o estopim para dar início a esse projeto pessoal que carrego desde a adolescência: meu blog/site.
Logo, a primeira versão desse texto foi um calhamaço que dava facilmente 25 minutos de leitura, tamanho a inspiração que tive ao escrever. 😅
Mas, recentemente, fiz algumas revisões e retirei algumas partes para tornar o texto mais fácil de ler.
Para quem estiver com coragem para embarcar nessa comigo, espero que goste de ler e refletir bastante, pois haverá muito disso por aqui.
O lema da Teimosia
Desde que assisti pela primeira vez à série, senti que era um anime edificante, onde os episódios e personagens servem para elevar o espírito, inspirando cada um a dar o seu melhor, sempre. Como bem apontou o excelente vídeo de retrospectiva da série que o canal Read It & Weeb fez, My Hero Academia transmite duas mensagens poderosas que ressoam profundamente com a experiência humana:
Qualquer um pode se tornar um herói.
Com o que você tem, faça o seu Melhor!
A primeira, “qualquer um pode ser um herói“, não é no sentido motivacional de adesivo de geladeira, mas no sentido brutal. É uma escolha de posicionamento diante do caos. É a coragem de ser útil quando a lógica diz que você é descartável.
A segunda mensagem, “com o que você tem, faça o seu melhor“, é a frase mais repetida em toda a história, em todos os momentos decisivos de cada personagem. Não é otimismo ingênuo. É uma instrução técnica. Você não precisa do dom maior, do contexto perfeito, do momento ideal. Precisa fazer o que é possível no lugar onde está e confiar que isso importa mais do que parece.
Para uma mente inclinada ao ceticismo como a minha, isso é desconfortável. Porque implica responsabilidade antes da certeza.
Não bastando ser alguém do perfil “copo meio vazio”, também nasci no Brasil, o “país da impunidade”. Apesar de concordar com a máxima de que qualquer um pode se tornar um herói em seu determinado contexto, é muito difícil querer fazer o melhor em uma nação que consistentemente flerta com a injustiça. No lugar de vilões com poderes destrutivos querendo dominar o mundo, temos pessoas em diferentes cargos de autoridade e influência que exploram, vilipendiam, tiram vantagem e se safam de qualquer ensaio de punição por possuírem “boas conexões” com as “engrenagens do sistema”.
Teimar em se opor a tudo isso, levando uma vida íntegra, combatendo o bom combate e dando o seu melhor no nível pessoal, é quase contraproducente quando se vê tantos corruptos sendo recompensados e os virtuosos sendo até perseguidos.
O que me chamou muito a atenção no anime foi um arco específico da 6ª temporada, onde o Japão está em uma situação caótica e os vilões escapam dos presídios e desestabilizam a ordem. Os alunos do curso de heróis da escola U.A., que ostenta o lema: Plus Ultra — “ir além do limite”, são os catalisadores da esperança teimosa que persiste em manter a “luz acesa”.
É reconfortante ver que, mesmo diante de toda impossibilidade, eles permaneceram com uma atitude esperançosa e isso foi constrangendo até os anti-heróis e os “isentões” durante a história. Mesmo quando a realidade é cruel e injusta, quem se posiciona contra a subserviência ou desânimo acaba contaminando maravilhosamente as pessoas à sua volta.
Atingiu até a mim, do outro lado da tela, no mundo real.
Quem é vivo, demonstra
Tem um problema com a esperança que ninguém anuncia no início.
Ela é trabalhosa. Ela exige que você continue quando a evidência disponível sugere que parar seria a decisão mais racional. E num mundo que entrega notificações de catástrofe e absurdos a cada trinta minutos, manter esperança não é ingenuidade: é basicamente um ato de resistência deliberada.
O irmão de Jesus, apóstolo Tiago, escreveu um dos textos mais pragmáticos do Novo Testamento:
“Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.
Mas alguém dirá: “Você tem fé; eu tenho obras”.
Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras.”
Tiago 2:17-18
Não adormecida, não em espera — morta. É uma afirmação desconcertante para quem prefere processar tudo antes de agir. Mas é também a afirmação que o Plus Ultra encarna em cada episódio: a esperança que não se move não é esperança. É evasão com outro nome.
Izuku Midoriya, o protagonista, não espera estar pronto. Ele age com o que tem, quebra o que precisa quebrar e continua. Não porque é corajoso por natureza — ele chora em metade dos episódios. Mas, porque entendeu, antes de conseguir articular, que a alternativa ao movimento é a dissolução.
Isso me afetou tanto que, mesmo depois do fim da série, fiquei semanas meditando sobre as ações heroicas de cada um dos personagens. A resolução dos principais conflitos da história se deu devido à demonstração de coragem e convicção daqueles alunos. Não foram os heróis profissionais e adultos que salvaram o mundo no fim do dia, mas sim a nova geração, influenciada pelo “Símbolo da Paz”, All Might.
Eu paro e penso em como movimentos de esperança se propagam. All Might não salvou o mundo diretamente no fim da história, mas ele formou quem salvaria. E a nova geração não foi salva por heróis profissionais no auge do poder, mas por adolescentes que carregavam o legado de alguém que já havia dado tudo.
Isso me lembra daqueles doze homens na Judeia há 2000 anos que não tinham nada além de uma convicção. E na quantidade absurda de histórias que aconteceu por causa disso. Não estou aqui para fazer apologética — só para notar que a lógica é a mesma: esperança ativa, transmitida por pessoas comuns, produz efeitos que nenhum cálculo racional conseguia prever. Quem diria que milhões de pessoas hoje em dia acreditariam no que doze apóstolos de milênios atrás pregaram?
Nessas horas, meu calvinismo acaba servindo como uma via de mão dupla: ao mesmo tempo que confio plenamente na soberania de Deus e que Ele está no controle de tudo, acabo “terceirizando” muitas coisas na mão Dele. E o pior é que uma das minhas frases favoritas de Martinho Lutero é justamente a que derruba meu comodismo:
“Deus não precisa de suas boas obras, mas seu vizinho precisa.”
Se tenho tanta convicção de que Deus está cuidando de tudo, por que não expresso essa verdade por meio da esperança? Afinal, cresci em um país “terra fértil” para isso. Não posso esperar que Jesus vá resolver tudo como sua versão alegórica das Crônicas de Nárnia, Aslam. É justamente aqui que tenho a oportunidade de ser “luz e sal” para essa terra brasileira.
Acreditar que o Brasil pode ser diferente do que sempre foi não é otimismo. É teimosia. E talvez seja exatamente isso. A corrupção não precisa de incentivo aqui; a decência é que precisa de coragem.
As filhas da esperança
Há uma definição que não consigo tirar da cabeça quando penso em tudo isso, e ela vem de um dos nomes mais influentes do Cristianismo, e também uma grande referência para mim:
“A Esperança tem duas filhas lindas, a Indignação e a Coragem; a Indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a Coragem, a mudá-las.”
Santo Agostinho
Isso encapsula a essência do que vemos em My Hero Academia. A esperança não é passiva; ela é alimentada pela indignação diante da injustiça e fortalecida pela coragem de agir. E, sendo honesto, traduz o que acredito que a fé deveria fazer no mundo real — não anestesiar o desconforto, mas nomeá-lo e então se mover contra ele.
Foi por meio de um anime de heróis adolescentes que Deus esfregou na minha cara algo que eu resistia em aceitar: que pequenas atitudes, as que parecem insignificantes na minha concepção limitada, produzem efeitos que eu não consigo calcular antecipadamente. Que o “quadro completo” raramente está disponível para quem está dentro da cena. E que esperar visibilidade total antes de agir é, na prática, não agir.
A questão não é se você tem o poder necessário. É o que está fazendo com o pouco que lhe foi dado.
Plus Ultra.



