Plus Ultra: Por que a Esperança ainda é a Maior das Rebeldias
Reflexões sobre como fui inspirado pelo anime My Hero Academia.
Tem uma cena no início do anime My Hero Academia que eu não consigo esquecer.
Izuku Midoriya, ainda criança, ouve de um médico aquilo que já suspeitava: ele nunca teria um poder. Em um mundo onde quase todos nascem com uma Quirk — uma habilidade única, sobrenatural — ele pertence à minoria que chegou ao mundo sem nada. O médico não é cruel. É apenas direto. E o silêncio que se segue é o tipo que não precisa de explicação.
Eu não nasci em um mundo de super-heróis. Mas conheço esse silêncio.
A paralisia de olhar para um sonho que parece tecnicamente impossível. A sensação de que muitos ao redor receberam algum código de acesso que nunca chegou até você. Em uma era de feeds inundados por sucessos extraordinários, especialistas e “propósitos” inabaláveis, ser comum não é só desconfortável — parece uma falha de sistema. A consciência de que a lógica não está do seu lado faz com que continuar tentando pareça apenas teimosia disfarçada de esperança.
Midoriya continua tentando. E eu fico observando isso com uma mistura de admiração e uma irritação tipicamente analítica que demorou um tempo para fazer sentido.
O lema da Teimosia
Desde que assisti pela primeira vez à série, senti que era um anime edificante, onde os episódios e personagens servem para elevar o espírito, inspirando cada um a dar o seu melhor, sempre. Como bem apontou o excelente vídeo de retrospectiva da série que o canal Read It & Weeb fez, My Hero Academia transmite duas mensagens poderosas que ressoam profundamente com a experiência humana:
Qualquer um pode se tornar um herói.
Com o que você tem, faça o seu Melhor!
A primeira, “qualquer um pode ser um herói“, não é no sentido motivacional de adesivo de geladeira, mas no sentido brutal — o heroísmo não é um privilégio biológico. É uma escolha de posicionamento diante do caos. É a coragem de ser útil quando a lógica diz que você é descartável.
A segunda mensagem, “com o que você tem, faça o seu melhor“, é a frase mais repetida em toda a história, em todos os momentos decisivos de cada personagem. Não é otimismo ingênuo. É uma instrução técnica. Você não precisa do dom maior, do contexto perfeito, do momento ideal. Precisa fazer o que é possível no lugar onde está — e confiar que isso importa mais do que parece.
Para uma mente inclinada ao ceticismo como a minha, isso é desconfortável. Porque implica responsabilidade antes da certeza.
Não bastando ser alguém do perfil “copo meio vazio”, também nasci no Brasil, o “país da impunidade”. Apesar de concordar com a máxima de que qualquer um pode se tornar um herói em seu determinado contexto, é muito difícil querer fazer o melhor em uma nação que consistentemente flerta com a injustiça. No lugar de vilões com poderes destrutivos querendo dominar o mundo, temos pessoas em diferentes cargos de autoridade e influência que exploram, vilipendiam, tiram vantagem e se safam de qualquer ensaio de punição por possuírem “boas conexões” com as “engrenagens do sistema”.
Teimar em se opor a tudo isso, levando uma vida íntegra, combatendo o bom combate e dando o seu melhor no nível pessoal, é quase contraproducente quando se vê tantos corruptos sendo recompensados e os virtuosos sendo até perseguidos.
O que me chamou muito a atenção no anime foi um arco específico da 6ª temporada, onde o Japão está em uma situação caótica e os vilões escapam dos presídios e desestabilizam a ordem. Os alunos do curso de heróis da escola U.A., que ostenta o lema: Plus Ultra — “ir além do limite”, são os catalisadores da esperança teimosa que persiste em manter a “luz acesa”.
É reconfortante ver que, mesmo diante de toda impossibilidade, eles permaneceram com uma atitude esperançosa e isso foi constrangendo até os anti-heróis e os “isentões” durante a história. Mesmo quando a realidade é cruel e injusta, quem se posiciona contra a subserviência ou desânimo acaba contaminando maravilhosamente as pessoas à sua volta.
Atingiu até a mim, do outro lado da tela, no mundo real.
Quem é vivo, demonstra
Tem um problema com a esperança que ninguém anuncia no início.
Ela é trabalhosa. Ela exige que você continue quando a evidência disponível sugere que parar seria a decisão mais racional. E num mundo que entrega notificações de catástrofe e absurdos a cada trinta minutos, manter esperança não é ingenuidade: é basicamente um ato de resistência deliberada.
O irmão de Jesus, apóstolo Tiago, escreveu um dos textos mais pragmáticos do Novo Testamento:
“Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.
Mas alguém dirá: “Você tem fé; eu tenho obras”.
Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras.”
Tiago 2:17-18
Não adormecida, não em espera — morta. É uma afirmação desconcertante para quem prefere processar tudo antes de agir. Mas é também a afirmação que o Plus Ultra encarna em cada episódio: a esperança que não se move não é esperança. É evasão com outro nome.
Midoriya não espera estar pronto. Ele age com o que tem, quebra o que precisa quebrar e continua. Não porque é corajoso por natureza — ele chora em metade dos episódios. Mas, porque entendeu, antes de conseguir articular, que a alternativa ao movimento é a dissolução.
Isso me afetou tanto que, mesmo depois do fim da série, fiquei semanas meditando sobre as ações heroicas de cada um dos alunos da U.A. A resolução dos principais conflitos da história se deu devido à demonstração de coragem e convicção desses personagens. Não foram os heróis profissionais adultos que salvaram o mundo no fim do dia, mas sim a nova geração, influenciada pelo “Símbolo da Paz”, All Might.
Eu paro e penso em como movimentos de esperança se propagam. All Might não salvou o mundo diretamente no fim da história — ele formou quem salvaria. E a nova geração não foi salva por heróis profissionais no auge do poder, mas por adolescentes que carregavam o legado de alguém que já havia dado tudo.
Não consigo não pensar nos doze homens que não tinham nada além de uma convicção há 2000 anos. E na quantidade absurda de histórias que aconteceu por causa disso. Não estou aqui para fazer apologética — só para notar que a lógica é a mesma: esperança ativa, transmitida por pessoas comuns, produz efeitos que nenhum cálculo racional conseguia prever. Quem diria que milhões de pessoas hoje em dia concordariam com doze apóstolos de milênios atrás?
Nessas horas, meu calvinismo acaba servindo como uma via de mão dupla: ao mesmo tempo que confio plenamente na soberania de Deus e que Ele está no controle de tudo, acabo “terceirizando” muitas coisas na mão Dele. O pior é que uma das minhas frases favoritas de Lutero é justamente a que derruba meu comodismo:
“Deus não precisa de suas boas obras, mas seu vizinho precisa.”
Se tenho tanta convicção de que Deus está cuidando de tudo, por que não expresso essa verdade por meio da esperança? Afinal, cresci em um país “terra fértil” para isso. Não posso esperar que Jesus vá resolver tudo como sua versão alegórica das Crônicas de Nárnia, Aslam. É justamente aqui que tenho a oportunidade de ser “luz e sal” para essa terra brasileira.
Acreditar que o Brasil pode ser diferente do que sempre foi não é otimismo. É teimosia. E talvez seja exatamente isso. A corrupção não precisa de incentivo aqui; a decência é que precisa de coragem.
As filhas da esperança
Há uma definição que não consigo tirar da cabeça quando penso em tudo isso, e ela vem de um dos nomes mais influentes do Cristianismo, e também uma grande referência para mim:
“A Esperança tem duas filhas lindas, a Indignação e a Coragem; a Indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a Coragem, a mudá-las.”
Santo Agostinho
Isso encapsula a essência do que vemos em My Hero Academia. A esperança não é passiva; ela é alimentada pela indignação diante da injustiça e fortalecida pela coragem de agir. E, sendo honesto, traduz o que acredito que a fé deveria fazer no mundo real — não anestesiar o desconforto, mas nomeá-lo e então se mover contra ele.
Foi por meio de um anime de heróis adolescentes que Deus esfregou na minha cara algo que eu resistia em aceitar: que pequenas atitudes, as que parecem insignificantes na minha concepção limitada, produzem efeitos que eu não consigo calcular antecipadamente. Que o “quadro completo” raramente está disponível para quem está dentro da cena. E que esperar visibilidade total antes de agir é, na prática, não agir.
O silêncio do consultório médico não era a palavra final sobre Midoriya. E há um argumento razoável para acreditar que o silêncio que você carrega também não é.
A questão não é se você tem o poder necessário. É o que está fazendo com o pouco que lhe foi dado.
Plus Ultra.



